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Lembranças

January 5, 2013

Cheguei em casa e encontrei o meu quarto todo revirado. Minha mãe havia aproveitado a minha ausência para “arrumar” os meus livros – o que significa que ela misturou livros espíritas com literatura, direito, fotografia, livros de arte e etc. – e tudo estava fora do lugar. Enfurecida com essa intromissão no meu espaço, engoli a minha raiva para não causar mais problemas e comecei a arrumar os livros de verdade, colocando em locais de fácil alcance os livros que eu estou lendo e guardando com cuidado os livros que estão fora de uso no momento.

Entre os livros a serem guardados, estavam duas sacolas empoeiradas nas quais não mexia havia anos. Eram os livros que eu herdei do meu avô.

Meu avô, apesar de ser um homem de origem humilde, sempre foi um amante dos livros e passou essa paixão para os filhos e os netos. Crescer dentro da sua biblioteca foi um aprendizado e tanto. Foi lá que eu aprendi a ler a escrever, a apreciar ópera (especialmente se fosse de Verdi e cantada pelo Gigli) e a admirar Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Gabriel Garcia Márquez, Thomas Mann e tantos outros.

Meu avô era tão apaixonado por livros que chegou a tentar a sorte como poeta quando jovem. Ele começou a escrever na “Revista Branca”, onde conheceu Lêdo Ivo (segundo o meu avô, um baú sem alça) e Adolfo Frederico Schmidt (a quem ele admirava muito). Contudo, oriundo de uma família pobre, meu avô teve de abandonar o sonho de ser poeta para garantir o sustento da casa.

Apesar de ter abandonado seu sonho, meu avô nunca se mostrou frustrado ou amargurado por isso – muito pelo contrário. Ressaltava a vida extraordinária que teve e as pessoas fantásticas com quem pôde conviver. Ele me educou a sempre olhar para frente e a levantar de cabeça erguida depois dos tombos da vida – e é isso que eu tento fazer até hoje.

Quando meu avô faleceu em 2006, deixou duas sacolas com livros e a etiqueta “ALINE” para mim. Talvez curvada pela saudade, só cheguei a abrir uma das sacolas e fiquei frustrada ao não encontrar “A montanha mágica”, livro que era um dos dois livros que ele mais amava (o outro era “Judas, o obscuro”, de Thomas Hardy). “A montanha mágica” acabou ficando com o meu tio.

Só voltei a abrir as sacolas hoje. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar não só o “Judas, o obscuro” (todo encapado para conservar a brochura que se desfazia), como vários livros do Albert Camus (vejam a foto abaixo). Embora meu avô sempre dissesse que Voltaire era seu pai espiritual, Camus era um dos filósofos que mais admirava. Por sua influência, li “O estrangeiro” ainda criança e me senti extremamente tocada pelo livro.

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Ao abrir “O homem revoltado”, encontrei o seguinte comentário feito pelo meu avô em uma folha de papel solta: “O homem lançado neste mundo, revoltado, irresponsável, “nada tem a justificar”. É inocente. Inocente como aqueles primitivos de que fala S. Maugham, antes da chegada do pastor que lhe ensina o Bem e o Mal, o permitido e o proibido: para ele tudo é permitido.”

Revirando as sacolas, encontrei ainda a autobiografia de Garcia Márquez, “Viver para contar”, livro que meu avô recebeu de presente da esposa do meu tio pouco tempo antes de ficar doente e que prometera me emprestar assim que acabasse de ler. Ele cumpriu a promessa postumamente. Reproduzo abaixo a dedicatória que encontrei no livro e que reproduz à perfeição quem era o meu avô.

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O ano está só começando, mas encontrar esses livros foi o acontecimento mais fantástico de 2013. É como se o meu avô, de onde ele está, olhasse para mim e dissesse: “minha filha, eu sempre estarei contigo”. Ou como diz uma citação do André Gide da qual ele gostava: “um homem é mais um homem pelas coisas que cala do que pelas coisas que diz”.

 

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One Comment
  1. Paulo Bianco permalink

    Bonito texto, Aline. Seu avô deve ter sido ser humano único, assim como você é.

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