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O feminismo ainda é necessário?

January 5, 2013

Volta e meia, ouço dos meus amigos homens que não faz sentido algum as mulheres reivindicarem vagões especiais no trem e no metrô e que isso seria um privilégio indevido. Durante a graduação, ouvi de um professor de Processo Penal que, na atual conjuntura do Brasil, a Lei Maria da Penha seria um retrocesso por, supostamente, estabelecer uma discriminação desnecessária. Também não são poucas as opiniões de gente esclarecida no sentido de que o feminismo teria perdido as suas bandeiras porque, supostamente, as feministas tiveram todas as reivindicações implementadas e as mulheres já teriam atingido a igualdade perante os homens.

Três fatos ocorridos em 2012, no entanto, parecem desmentir aqueles que entendem que o prazo de validade do feminismo passou. O primeiro deles foi o cruel ataque à menina paquistanesa Malala Yousafzai, militante pelo direito das meninas a terem acesso à educação. Malala mantinha um blog no qual relatava as dificuldades que enfrentava para estudar em uma região do Paquistão dominada por radicais islâmicos. Seus relatos atraíram a atenção mundial e lhe deram notoriedade. Os fundamentalistas de seu país, no entanto, não gostaram nada de seu blog e resolveram matá-la para servir de “exemplo”. Alvejada no pescoço e na cabeça quando voltava da escola, Malala foi transferida para um hospital no Reino Unido, onde ficou internada até 4 de janeiro de 2013. Sua recuperação, além de ser uma prova da sua força de vontade, mostra que o tiro dos talibãs saiu pela culatra, pois, ao invés de minar a causa de Malala, criou uma verdadeira rede de solidariedade mundial em favor das meninas paquistanesas.

Outro fato marcante no plano internacional foram as gigantescas manifestações ocorridas na Índia em repúdio ao estupro coletivo de uma estudante em um ônibus da cidade de Nova Délhi. Essencialmente uma sociedade patriarcal, a Índia se comoveu com a história da jovem estuprada por seis homens e agredida com uma barra de ferro quando voltava para casa após ir ao cinema com o namorado (também agredido). Embora os relatos sobre o caso ainda sejam desencontrados, sabe-se que os agressores jogaram a vítima para fora com o ônibus ainda em movimento e tentaram atropelá-la, bem como que ela sofreu ferimentos internos resultantes da introdução da barra de ferro em seu corpo. Infelizmente, a jovem não resistiu aos ferimentos e faleceu em um hospital de Cingapura, para onde fora transferida por um acuado Governo indiano – que, após tentar fazer vista grossa, foi forçado a tomar atitudes no caso. A brutalidade desse estupro coletivo também ajudou a jogar luzes sobre o machismo da polícia indiana, que se recusa a registrar casos de estupro e muitas vezes força a vítima a se casar com seu agressor. A indignação popular com o caso foi tanta que o Governo indiano resolveu criar um tribunal ad hoc para julgar o caso – o que demonstra, mais uma vez, que as instituições não vão bem na Índia.

Mas vocês devem estar se perguntando: e o Brasil com isso? Um possível caso de estupro noticiado pela “Folha de São Paulo” expôs as nossas semelhanças com a Índia. Em 30 de novembro, uma estudante de direito se matou após supostamente ter sido vítima de estupro durante a festa de final de ano do escritório em que trabalhava. Além do fato ter sido noticiado apenas um mês após ocorrido (o que em si já seria estranho), chocam os comentários feitos por alguns leitores no site da “Folha”, os quais parecem ter sido feitos por pessoas que se teletransportaram da Idade Média. Ao argumentarem que “em festa de final de ano vale tudo” e que “ela devia dar mole para os agressores”, esses leitores culpavam a vítima pelo acontecido. Mais: segundo notícia a que assisti na Record, a polícia de São Paulo teria achado o bilhete de suicídio da vítima “inverossímil” (pois dizia que o estupro ocorrera em um carro durante o retorno da estudante para casa) e estaria centrando sua investigação na conduta da psiquiatra que atendeu a jovem após a mesma entrar em depressão por conta do suposto crime. Até ofício ao CREMESP foi enviado questionando o fato da médica ter receitado um antidepressivo para a estudante.

E eu nem citei as estatísticas do IBGE que comprovam que as mulheres ainda ganham menos do que os homens exercendo a mesma função e sendo mais qualificadas. Em casa, são praticamente as únicas responsáveis pelo serviço doméstico.

Mais triste, no entanto, é constatar que existem muitas mulheres machistas, que criam suas filhas para serem submissas ao marido e seus filhos para serem brutamontes que não sabem lidar com mulheres que são donas de seu próprio nariz. Talvez um reflexo dessa criação seja o sucesso da trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”.

Não estou falando da questão do sadomasoquismo – até porque não vejo nenhum problema em sua prática consentida – mas do verdadeiro culto criado em torno de Christian Grey, o “mocinho” da história. Rico, culto, bonito e profissionalmente bem-sucedido, Grey também é um sujeito que se acha no direito de obrigar a namorada a frequentar a academia por um número determinado de dias, impor a forma como ela deve se vestir e até a forma como ela deve se portar em público. Essa conduta autoritária, porém, é vista por mulheres inteligentes e bem-sucedidas como “proteção”. Não sabia que machismo agora tinha esse nome…

Será que as mulheres ainda querem um príncipe que venha em um cavalo branco? Ou um macho provedor que venha resolver todos os problemas? Sinceramente, prefiro um sujeito inseguro e dócil como Mark Darcy (da série “Bridget Jones”) ao autoritário Grey. E vejo que ainda há muito a avançar quanto ao direito das mulheres. O feminismo, infelizmente, ainda é necessário.

 

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