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A comédia de erros dos aeroportos do Rio.

January 12, 2013

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Como continuação natural do meu post anterior, o tema deste post é o estado calamitoso em que se encontram os aeroportos do Rio de Janeiro. Santos Dumont e Antônio Carlos Jobim encontram-se em estado de verdadeiro abandono, com obras inacabadas, manutenção deficiente e muitas desculpas esfarrapadas por parte das autoridades.

Vamos começar pelo aeroporto em situação mais difícil: GIG. Inaugurado na década de 1950, o Galeão foi reformulado na década de 1970, quando foi inaugurado o atual terminal 1, tendo recebido o seu segundo terminal em 1999 (terminal esse, aliás, nunca concluído). Com previsão inicial de construção de quatro terminais (vide http://www.revistatechne.com.br/engenharia-civil/71/artigo32523-1.asp), o Galeão sempre enfrentou concorrência férrea do Santos Dumont (nos voos domésticos) e de Guarulhos (nos voos internacionais), além de ser mais uma vítima do esvaziamento econômico sofrido pelo Rio de Janeiro com a mudança da capital para Brasília. Tais fatos talvez ajudem a explicar o descaso com que é tratado.

Uma situação bem ilustrativa do pardieiro que se transformou o Galeão foi o meu desembarque após uma viagem ao Chile, em maio de 2012. O meu voo (LA772, rota SCL-GIG sem escalas) veio lotado, sendo que a grande maioria dos passageiros era formada por chilenos. Após cerca de dez minutos aguardando o acoplamento do finger (e olhem que dez minutos é pouquíssimo tempo para padrões de GIG; já passei uma hora aguardando acoplamento de finger), finalmente desembarcamos. Recepcionados por um painel dizendo “disimbarkation – LA772 – 18:02” (isto é sério, e os chilenos do voo se acabaram de rir), nos dirigimos ao controle de passaporte, onde fomos recepcionados por apenas um agente da Polícia Federal, que ficaria responsável por fazer a entrada tanto de brasileiros como de estrangeiros. Após instalada a confusão, colocaram mais um agente – mas esqueceram de separar a fila.

Passada a confusão do controle de passaporte, aquele momento de tensão que acompanha todo mundo que aterrissa em qualquer aeroporto brasileiro: saber se a sua mala chegou e se não levaram nada de dentro dela. Na época, a Lan ainda operava no Terminal 1, notoriamente obsoleto. Além do painel da Infraero indicar que as nossas malas sairiam em uma esteira que, na verdade, estava sendo ocupada pela bagagem de um voo da Gol, as malas demoraram a surgir. Quando as malas começaram a aparecer, um espetáculo patético: as malas tamanho G simplesmente não cabem nas velhas esteiras do terminal 1 e caem a toda hora, sendo atiradas de volta à esteira pelos funcionários terceirizados da Infraero.

Vocês acham que acabou? Não. Após pegar a minha mala, me dirigi ao minúsculo free shop (onde acabei comprando apenas chocolate) e tentei usar um dos fétidos banheiros do desembarque (tarefa impossível, pois as minhas malas tamanho P não cabiam no reservado). Doida para chegar em casa, ainda fui tratada de forma ríspida na aduana (o funcionário da Receita não quis nem receber o meu formulário de “nada a declarar”, fazendo sinal para que eu fosse embora) e tive de aguentar o habitual assédio das empresas de táxi que operam no aeroporto – do qual eu rapidamente me esquivei para pegar um táxi na área de embarque.

Além de todos os problemas relatados acima, os elevadores do Galeão vivem quebrados, as esteiras que ligam os terminais 1 e 2 idem, e há mais lojas fechadas que abertas (não há suplício maior que ter um voo muito cedo ou muito tarde, pois é certeza de que NADA estará funcionando). Pedir informação é outra aventura, visto que a quase totalidade dos funcionários do Galeão é de terceirizados que parecem pouco se importar com o trabalho que fazem. Em dias de muito calor, o ar condicionado simplesmente não dá vazão, especialmente na sala de embarque, que é toda envidraçada. O hotel existente no terminal 1 é caro e não se destaca pelo conforto (bem diferente dos Hollyday Inn dos aeroportos de Lima e de Santiago).

Mas o “ápice” do pandemônio ocorreu no dia 26 de dezembro de 2012, dia mais quente do ano no Rio de Janeiro. O aeroporto sofreu um apagão de duas horas, voos foram cancelados e o superintendente da Infraero, após tentar dizer que tudo estava “normal”, pôs a culpa do ocorrido no calor (como se o calor do verão do Rio de Janeiro não fosse um fato conhecido e previsível).

Pensar que essa é a vitrine do Rio de Janeiro no exterior dá calafrios. Confesso que, se eu fosse turista, pensaria duas vezes se eu voltaria à cidade após me deparar com a lixeira que é esse aeroporto – aliás, o que dizer do cheiro exalado pelo Canal do Cunha, cartão de visitas olfativo da cidade?

O Santos Dumont, outrora o aeroporto mais charmoso do Rio de Janeiro, também agoniza. Além de superlotado enquanto o Galeão permanece ocioso (um evidente erro de planejamento da Infraero), o Santos Dumont sofreu uma reforma desastrosa nos anos 2000, que transformou a sala de embarque em uma estufa (de quem foi a ideia infeliz de fazer uma sala de embarque toda envidraçada em uma cidade quente como o Rio?) e descaracterizou o belo prédio da década de 1930. Pior: essa reforma nunca foi concluída e se transformou em um verdadeiro sugadouro de dinheiro público. O estacionamento vive lotado sem que haja previsão de abertura de novas vagas – isto apesar dos altos preços pagos pelos usuários do serviço.

A comédia de erros em que se transformaram os aeroportos do Rio reflete a forma mambembe com que a Infraero “gerencia” os aeroportos brasileiros. Inchada e ineficiente, a Infraero cobra uma taxa de embarque das mais caras de que eu tenho notícia para entregar serviços dignos de uma rodoviária de quinta. Apesar das principais funções nos aeroportos serem exercidas por terceirizados, a Infraero conta com um grande quadro de funcionários, só explicável pelo cabide de empregos em que se transformou. Isso sem falar do loteamento político de cargos técnicos – com o qual também sofre a ANAC, como exposto no episódio dos irmãos Vieira.

Com o planejamento estratégico entregue a apaniguados políticos, a Infraero amplia aeroportos ociosos enquanto aeroportos saturados têm sua capacidade ampliada por “puxadinhos”. Obras simples como reformas de banheiros levam meses e são mal feitas, levando a constantes reparos em instalações novas. A situação é tão crítica que nem mesmo a propalada privatização é capaz de salvar os aeroportos brasileiros – ao menos, não no modelo proposto.

Isto porque nenhuma empresa séria vai querer ter como sócia compulsória (e com 49% das quotas) uma empresa ineficiente como a Infraero, que nada tem a agregar ao negócio. Isto foi demonstrado pela privatização dos aeroportos de Viracopos, Guarulhos e Brasília, os quais serão administrados por empresas sem experiência em grandes aeroportos. O Governo Dilma, porém, não aprendeu a lição, e ameaça criar uma estatal para gerir as quotas da Infraero em uma futura privatização do Galeão e de Confins. Se nada for feito, essas novas privatizações serão retumbantes fracassos, e os novos operadores irão logo pedir socorro financeiro à União para manter a viabilidade econômica dos terminais. E, como sempre, eu e você pagaremos a conta do capitalismo sem risco que foi inventado em Pindorama ainda nas privatizações do Governo FHC.

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