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Abraçando o mundo com os braços e as pernas.

January 16, 2013

Minha avó sempre disse que eu queria abraçar o mundo com os braços e as pernas. Sempre disse também que, se eu quisesse ser bem-sucedida, deveria ir mais devagar. Esses foram conselhos que eu sempre ignorei e hoje penso que talvez ainda me sejam úteis.

Como 99% dos jovens da minha geração (Geração Y), cresci conectada. A internet chegou ao Brasil em 1996, quando eu tinha 10 anos, e muito antes disso eu já tinha contato com computadores (olá, 486 e afins!!!). Além disso, já nasci com um presidente civil no poder, o muro de Berlim caiu quando eu tinha 3 anos de idade, a primeira moeda que eu lembro ter manuseado foi o real e o máximo que eu lembro dos tempos de hiperinflação era fazer compras de mês antes que os preços disparassem. O que significa tudo isso? Significa que eu cresci com muito mais oportunidades (e possibilidades) do que as gerações do meu pai e do meu avô. Significa também que, ao contrário do meu avô, o meu horizonte passou a ser o mundo, e não apenas a cidade do Rio de Janeiro – tudo isso graças à globalização proporcionada pelo fim da Guerra Fria e pela criação da internet.

Por outro lado, as cobranças aumentaram – e muito. Se na época do meu avô ter diploma de ensino superior era garantia de emprego, hoje ter mestrado está se tornando corriqueiro no mercado. Se antes bastava ter um inglês intermediário, hoje o inglês fluente é básico em muitas principais e falar uma segunda ou terceira língua estrangeira passou a significar liquidez no mercado de trabalho. Se antes quase ninguém fazia intercâmbio, experiência no exterior virou pré-requisito para alguns cargos.Da mesma forma, para a geração do meu avô, emprego era para toda a vida, quase um direito de propriedade. Hoje a coisa mais corriqueira são pessoas trocando de emprego em busca de melhores oportunidades e melhores salários. Sem contar os famigerados “desligamentos” por corte de custos, não cumprimento de metas, falta de motivação do funcionário e outras desculpas esfarrapadas que arrumam para dizer que você não serve para a empresa.

Ainda quanto a ambiente de trabalho, se na época do meu avô era necessário matar um leão por dia, hoje você tem de matar a savana inteira para provar que está motivado e comprometido. A cobrança é cruel e por vezes injusta, sendo que muitas vezes não basta ter mérito e fazer tudo direitinho: é necessário ter os contatos certos e adular as pessoas corretas.

Como se não bastassem as cobranças profissionais, no campo pessoal o cerco também está apertado. Você tem de ser o mais simpático (introspecção é ofensa pessoal), o que no Brasil significa falar platitudes a la Martha Medeiros, vestir a moda ditada nas novelas da Globo (a Michael Kors ainda fará uma estátua da Carminha em sua sede), fechar sempre com as opiniões da maioria e, principalmente, nunca, nunquinha, emitir uma opinião crítica sobre o que quer que seja. No máximo te é autorizado reproduzir as baboseiras que o Arnaldo Jabor profere em sua coluna do Globo (aliás, quem decretou que Merval Pereira, Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor são críticos abalizados do que quer que seja????).

Se você é mulher, não ouse ter um projeto de vida independente, nem muito menos se mostrar feliz sendo solteira e perseguindo o sucesso profissional; você será taxada de lésbica, mal amada, egoísta, macho alfa e outros adjetivos “simpáticos”. Em pleno século XXI, a sociedade brasileira vê com péssimos olhos a mulher que escolheu ser independente e/ou pior: não quis ser mãe.

E os homens brasileiros parecem ainda não ter saído das cavernas, pois ainda esperam uma mulher “feminina” (leia-se submissa e única responsável por cuidar da casa, dos filhos e dele próprio). E ela ainda tem de ser magra e gostosa.

Ah!, a magreza. É incrível como ela te abre portas. Posso dizer que muitas pessoas passaram a me tratar melhor depois que eu emagreci (sendo que eu continuo a mesma pessoa). Até o meu primo de 4 anos já aprendeu a importância da magreza e quer fazer dieta por estar pesando 20 kg.

Durma-se com uma pressão dessas! Eu, por exemplo, não durmo mais. Meu cérebro simplesmente não consegue desligar ainda que esteja a ponto de derreter com o excesso de uso. Penso, logo não durmo: eis o meu lema. Não se admira a verdadeira epidemia de depressão, síndrome do pânico e outras doenças psíquicas entre as pessoas da minha idade.

Um dia ideal deveria ter 36 horas para dar conta de trabalho, academia, estudo, lazer, alimentação e etc. E ai de você se não fizer tudo isso sem reclamar e com um sorriso no rosto: tristeza, críticas e estafa são socialmente mal vistos.

Essa pressão surreal que colocamos sobre as nossas próprias cabeças me faz pensar que muitas vezes não sabemos aproveitar as nossas conquistas. Aos quase 27 anos, tenho um padrão de vida razoável, mas me pego me sentindo uma fracassada por ainda morar com meus pais e por não ter obtido todo o sucesso que eu gostaria. Nessas horas, fico lembrando dos conselhos da minha avó e penso: será que eu não quero ir rápido demais? E será que com isso não estou me destruindo como uma estrela supernova, cujo brilho, embora intenso, é efêmero?

Às vezes, penso que a minha vida é um episódio de “Girls”, com roteiro do Almodóvar e direção do David Lynch. Ou seja, um desastre completo!

Esse texto mal escrito são apenas algumas reflexões em voz alta que eu ando fazendo como parte do meu inferno astral (faço aniversário dia 27). Estar mais perto dos 30 do que dos 20 tem mexido comigo. Sinto que falta um “big accomplishment” na minha vida. Não sei se vocês passam pelo mesmo. Espero que dessa crise saia algo de útil. Mesmo.

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One Comment
  1. Paulo Bianco permalink

    Passo pelos mesmo dilemas que você, minha querida amiga. Até porque já completo the big thirty este ano mesmo. É assustador: deixa de ser uma distante conjectura da infância para ser algo factível, iminente. Para mim, há algum tempo os trinta anos começaram a soar como uma idade decisiva, um grande marco. Afinal, dizem que a adolescência tardia da nossa geração (seria eu também um membro da geração Y? creio eu que sim) termina nessa idade. Com trinta anos, meus pais já estavam casados há cinco, tinham um filho de quatro e tiveram o segundo filho. Enfim, como você, sinto-me dividido, pois parte de mim se sente realizada com o que já alcancei. Por outro lado, ainda é difícil lidar com a ansiedade e a frustração de não ter realizado ainda alguns sonhos e começa a pairar a dúvida sobre se um dia eles se tornarão realidade.

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