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“O morro dos ventos uivantes” v. “Crepúsculo” v. “Cinquenta tons de cinza” ou Como os livros voltados para as mulheres decaíram

January 19, 2013

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Inicialmente, a autora deste texto vai logo avisando que nada tem contra a chamada “literatura mulherzinha” – ou “chick lit”, como chamam em inglês. Muito pelo contrário. Amo a série Bridget Jones, li com algum interesse “Comer, rezar, amar” e sou consumidora voraz de revistas como “Vogue”, “Glamour” e “Marie Claire”. Ademais, adoro séries mulherzinha, como “Gilrs” e “Sex and the city” (esta última até o momento em que a série se desconectou por completo da realidade, pois vamos combinar que ter um closet cheio de Loubotins e namorar o Mikhail Baryshnikov são coisas que não condizem com a realidade de classe média, certo?). Minha santa de adoração no cinema é Audrey Hepburn (ah, os figurinos de Holly Golightly e de Natasha Rostov!) e confesso que durante muito tempo acompanhei com interesse comédias românticas da Meg Ryan. Portanto, não posso ser tachada de feminista raivosa sob nenhuma perspectiva.

Também conservo dentro de mim algum romantismo. Chorei baldes vendo “As pontes de Madison” e “Bright star” (a cinebiografia do John Keats) e escrevo neste momento ouvindo a minha própria compilação de power ballads (está tocando “Is this Love”, do Whitesnake). Desta forma, tampouco sou um coração insensível.

No entanto, não consigo entender o frisson causado pelas sagas “Crepúsculo” e “Cinquenta tons de cinza”. A primeira alia a temática vampiresca (que, se bem aproveitada, rende clássicos como “Drácula”) ao amor proibido entre dois adolescentes e a segunda combina uma história de iniciação sexual (tema bem explorado em livros como “O amante”, de Marguerite Duras) com sadomasoquismo (porém, seu o refinamento estilístico de um Marquês de Sade). Vamos começar analisando a saga “Crepúsculo”.

Meu primeiro problema com “Crepúsculo” é o fato da sua editora no Brasil classificar a série de livros como uma saga. Saga, conforme a definição de qualquer dicionário, é uma narrativa épica, sendo que o termo foi cunhado pelos antigos vikings. E, com todo o respeito aos fãs de “Crepúsculo”, a história de Bella e Edward não pode ser classificada como épica em nenhum sentido. Como já indicado por um meme que circula no Facebook, “O senhor dos anéis” é um épico, “As crônicas de Nárnia” é um épico, até “Harry Potter” pode ser considerado um épico – “Crepúsculo”, contudo, não tem os elementos de um épico, como os atos de bravura e a narrativa grandiloquente.

Além disso, a história em si pouco tem de original, pois a própria Stephanie Meyer já declarou diversas vezes que bebeu de fontes clássicas, como os livros das irmãs Brontë. Não à toa, Bella e Edward adoram “O morro dos ventos uivantes”, livro do qual “Crepúsculo” pegou seu fio condutor: uma mocinha vacilante que se apaixona por um mocinho incomum (em “O morro dos ventos uivantes”, Heathcliff é um cigano criado como irmão adotivo de Catherine; em “Crepúsculo”, Edward é um vampiro) e acaba por traí-lo. Contudo, os personagens de “Crepúsculo” não possuem a profundidade psicológica dos personagens de “O morro dos ventos uivantes” – aliás, chega a ser triste constatar que Heathcliff, um personagem complexo e contraditório, possa ter inspirado um personagem da profundidade de um pires como Edward. Enquanto Heathcliff, embora ame Catherine, não hesita em causar a ruína de sua família em um alentado plano de vingança, Edward carece de conflitos internos que não estejam diretamente ligados à temática do amor proibido.

Da mesma forma, falta a “Crepúsculo” a potência estilística de “O morro dos ventos uivantes”. Não há em “Crepúsculo” nenhuma fala marcante e simples ao mesmo tempo como a famosa frase “I am Heathcliff” proferida por Catherine no terceiro capítulo de “O morro dos ventos uivantes”. É como se para “Crepúsculo” virar Best seller fosse necessário abandonar totalmente o estilo – o que é desmentido pelos sucessos de Stieg Larsson, John Le Carré e Graham Greene, bobagens absolutamente deliciosas de ler e que nem por isso são desprovidas de estilo.

Também quanto à temática vampiresco, nada de novo sob o céu. Não é inovação o fato de Edward ser um vampiro bonzinho – Louie, de “Entrevista com o vampiro”, já era um vampiro do bem. E nenhum dos vampiros da trama crepuscular tem as nuances de um Drácula ou um de um Lestat.

Por fim, há a desconexão total com a realidade. Por mais que se entenda o viés romântico da história e que se considere o descompromisso da literatura com a realidade, pretender que dois adolescentes dos anos 2000, ainda que um deles seja vampiro, se guardem para o casamento mesmo após diversas oportunidades de consumarem o ato sexual é quase uma temática de ficção científica.

Há que se reconhecer, porém, que mesmo com todos os seus defeitos “Crepúsculo” entretém. O mesmo não se pode dizer de “Cinquenta tons de cinza”. Nascido de uma fan fiction de “Crepúsculo” publicada por uma senhora de meia idade, “Cinquenta tons de cinza” tem uma prosa modorrenta de dar dó. Após tentar ler o livro diversas vezes, sem sucesso, adotei a técnica da leitura dinâmica para finalizar a leitura de tão difícil que estava sair do primeiro capítulo. O único item realmente interessante e original do livro é o contrato de dominação – exaustivamente discutido no primeiro volume da série, o único que tive paciência de ler.

De resto, prosa repetitiva e que não leva a lugar algum. A autora perde páginas e páginas descrevendo cenas absolutamente inúteis (pois não levam a ação adiante), como aquela em que Ana Steele descreve o modo como penteia o cabelo. Note-se que detalhismo não é necessariamente um defeito em um livro. Eça de Queiroz, por exemplo, descreve em todos os pormenores o “Ramalhete”, palácio da família Maia, para dar detalhes da vida daqueles personagens que, mais adiante, serão importantes para o enredo. Não é o caso da prosa pleonástica e truncada de E. L. James.

As cenas de sexo em si são chatíssimas – se você leu uma, leu todas, pois a autora se atém mais à “mecânica” das cenas do que ao clima. Como a mecânica do ato sexual em si é repetitiva, as descrições, ao invés de excitantes, são um tédio só. E, para ser sincera, não me chocaram nem um pouquinho. As cenas de sexo de “Girls”, nada glamourosas, são mais chocantes.

Essa é, aliás, uma das razões pelas quais eu não entendo o sucesso do livro. Como as pessoas podem ter ficado chocadas com as cenas de sexo de “Cinquenta tons de cinza”? Não há nada ali que não seja mostrado na madrugada do Multishow ou em canais como o Sexy Hot! Chocar-se com descrições do ato sexual em uma banheira, como eu ouvi de uma quarentona no metrô outro dia? A vida sexual das pessoas deve estar muito ruim mesmo… A todos que ficaram chocados com “Cinquenta tons de cinza”, vou providenciar exemplares de “Filosofia na alcova” e “Marquesa D’Ó”.

Outro ponto irritante do livro é a fragilidade da mocinha diante do macho alfa Christian Grey. Enquanto Anastasia Steele é tão inocente que no início do livro diz que sentiu “um calor lá” após ser beijada por Grey, o mocinho é um príncipe encantado sadomasoquista que trocou o cavalo branco por carros potentes e helicópteros e é tão autoritário que diz o que Ana deve vestir e como ela deve se comportar. Será que é deste tipo de homem que precisamos, meninas?

Não sem razão, “O morro dos ventos uivantes” aparece pálido na foto que ilustra este post. Pálido de vergonha da qualidade da literatura feminina lançada a reboque de “Crepúsculo” e “Cinquenta tons de cinza”. Que venham tempos melhores.

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