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A tragédia de Santa Maria e os “especialistas” entrevistados pela imprensa.

February 5, 2013

Já faz uma semana que estou querendo escrever aqui no blog sobre a tragédia de Santa Maria. Ocorre que, para tanto horror, nunca haverá palavras suficientes e o silêncio obsequioso, muitas vezes, é a melhor forma de expressão. Assim que eu resolvi tocar neste assunto não para falar o óbvio (a tragédia de tantas vidas perdidas, a imprudência de empresários, etc.), mas para chamar atenção para um aspecto que talvez tenha passado despercebido da maioria: a baixa qualidade do material jornalístico (em geral) produzido sobre o desastre de Santa Maria.

Em um evento destas proporções, em que tantas vidas humanas foram ceifadas prematuramente, não é difícil sentir empatia pelas vítimas e suas famílias – ainda mais se você, como eu, é jovem e frequenta casas noturnas. Desta empatia, nascem os “comentaristas de Facebook”, pessoas que, mesmo sem conhecimento técnico, querem dar sua opinião sobre o evento, até para extravasar o que estão sentindo. É um fenômeno natural que foi apenas amplificado pela internet, a qual permitiu que “opiniões de mesa de bar” fossem divulgadas para o mundo (literalmente). Justamente por se tratar de uma opinião que, previamente, o ouvinte/leitor sabe ser emanada de um não especialista no assunto, ela provoca em sua audiência o mesmo efeito de uma opinião inflamada exposta em um grupo de amigos ou daquela conversa entre desconhecidos que você ouve por acaso no transporte público.

Diferente, no entanto, é o papel da imprensa. Por ter dever de informar e seguir linhas editoriais pré-definidas (ao contrário do que acontece em regra com blogs e páginas de redes sociais), a imprensa (ou, ao menos, a grande imprensa) deveria ter mais cuidado com a qualidade da informação que transmite, sejam apenas dados repassados por autoridades, sejam opiniões expressas por especialistas. Neste sentido, não é porque o dado veio de uma autoridade que não seja passível de ser checado, assim como é necessário apurar se os especialistas convidados a expor seu ponto de vista sobre um assunto têm a devida qualificação para falar sobre o tópico.

No entanto, em tempos de internet – quando o que vale mais é a agilidade da informação, não a qualidade do que é divulgado – são inúmeras as informações equivocadas que são passadas ao público com estardalhaço sem serem desmentidas com igual destaque após verificada a sua imprecisão. No dia do incêndio na Boate Kiss, algumas redes de televisão chegaram a noticiar que a citada boate teria capacidade para 4.000 pessoas (o que, visivelmente, não era o caso) e a noticiar o número de mortos sem ressalvar que nem mesmo as autoridades tinham números precisos da tragédia. No dia seguinte (uma segunda-feira), quando foram decretadas as prisões temporárias de quatro suspeitos pelo incêndio, não tardou a que articulistas que certamente nunca abriram o Código Penal começassem a ressaltar o “dolo eventual” do dono da boate e que, na posição oposta, defensores de direitos humanos (os quais certamente nunca ouviram falar de Luigi Ferrajoli) alegassem que houve um atentado ao Estado Democrático de Direito em razão das prisões “decretadas” pelo delegado de Santa Maria (olvidando-se que, se não é caso de flagrante, a prisão é decretada por um juiz, atendendo a pedido do MP ou da polícia).

Em pouco tempo, pipocaram juristas na televisão em velocidade superior à reprodução dos Gremlins – o mesmo acontecendo quanto a especialistas “médicos”, analisando as lesões sofridas pelas vítimas no incêndio sem sequer olhar para os pacientes. Todo mundo na rua tornou-se especialista em dolo eventual e pneumonia em questão de minutos sem sequer ter aberto um livro sobre o assunto. Azar de médicos e advogados que passaram, respectivamente, seis e cinco anos na faculdade para aprender a exercer seus ofícios. Burros! Deveriam ter feito um intensivo de Globo News e Record News que teria sido mais útil.

E nem se fale da exploração da miséria alheia. Não bastasse a transmissão ao vivo do Jornal Nacional direto da Boate Kiss (a equipe global e outros jornalistas conseguiram adentrar o local do sinistro mesmo antes de concluída a perícia!), o que são os repórteres, das mais diversas emissoras, questionando os pais das vítimas sobre “o que estão sentindo?”, ao mesmo tempo em que encostam gravadores e microfones em rostos visivelmente dilacerados pela dor? Não à toa, um famoso filme sobre sensacionalismo jornalístico chama-se “A montanha dos sete abutres”…

Fico por aqui, mas gostaria que vocês refletissem sobre a qualidade das notícias que leem. Eu sei que é difícil, mas tentam não se influenciar tanto pelas opiniões expressas na imprensa. Tentem formar a sua opinião – até porque, como parece estar ficando cada vez mais claro, não são muitas as diferenças entre os “especialistas” midiáticos e você no que se refere a conhecimento dos tópicos abordados.

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2 Comments
  1. Felipe Lima permalink

    Bom, se você levantar algum destes questionamentos, os ditos “repórteres” vão se proteger na liberdade de imprensa. Aí entra a questão: até onde vai a liberdade, realmente? Quando que falar qualquer coisa vira abuso? Hoje eu não saberia responder.

    • Felipe, acho que a solução para este tipo de situação seria criar um órgão autorregulador da imprensa ao estilo do CONAR – que funciona bem e está muito longe de ser um órgão de censura. Há um órgão de autorregulamentação na Austrália, por exemplo – e eu nunca vi os defensores da liberdade de imprensa bradarem que a Austrália é um país que restringe a liberdade de expressão.

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